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Page:Poesias de Dom Pedro II.pdf/172

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Do pagāo a cruel mentira ao baptisado
Augmentando o horror do chôro angustiado,
O viajante escuta, e fica-se calado.
Mal arde a luz no barco; á roda a escuridāo
Do arvoredo e cipós formando um turbilhāo,
E as aguas sem rumor negras correndo vāo !
Porem ao viajante occulto sentimento
De como a natureza é boa em seu intento,
E Deus ao beneficio eterno sempre attento,
Ergue os olhos aos Ceos serenos, luminosos
De astros mil tropicaes, e os gritos ominosos
Brilha a cruz do perdāo, - e ei-los harmoniosos.
« Pae de todos », exclama em fervida oraçāo,
« Todos amas: teu filho em peregrinação
« A si pode perder-se, a ti nāo pode nāo!
« As almas tuas sāo, o ar da manhā nāo traz
« Longe uma só do Sêr que em toda parte jaz,
« Nem mesmo a esconde o inferno; pois ali estás,
« Atravez do peccado e da perversidade
« Dos crimes e vergonhas, dores e maldade,
« A tua creatura inda olhas com piedade.
« Principio e Fim Eterno, em tua eterna vida
« Nāo has de, da existencia a trama reurdida,
« Mudar em hymno o choro d’uma alma perdida.